Sabia que é muito difícil encontrar uma companhia de seguros que aceite fazer o seguro de uma propriedade florestal?
Sabia que é muito difícil encontrar uma companhia de seguros que aceite fazer o seguro de uma propriedade florestal?

Todos anos ardem milhares de hectares de floresta e a maior parte dos proprietários pouco ou nada recebem porque não fizeram um seguro! Mas, por que razões não fazem os agricultores seguros contra o incêndio das suas propriedades?

Na realidade é muito difícil, ou quase impossível, encontrar uma companhia que aceite fazer o seguro de uma propriedade florestal, por exemplo, de um montado de sobreiros. Algumas companhias dizem simplesmente que não fazem, outras depois de longos inquéritos acabam recusando e se alguma aceita, faz um seguro de elevado prémio anual e que, em caso de incêndio, dá ao proprietário uma indemnização que mal chega para fazer uma nova plantação.

À primeira vista parece incompreensível que as companhias de seguro não queiram explorar este nicho de mercado, quando são tão competitivas, e comercialmente tão agressivas, em outros ramos de actividade, como seja, por exemplo, o ramo automóvel ou o ramo vida.

Se as companhias não entram no negócio é porque o mesmo não é lucrativo! Como se costuma dizer: não há almoços grátis!

Vejamos as razões que fazem com que tal aconteça.

Primeiro, contrariamente ao que acontece em outros ramos de actividade como, por exemplo, no ramo automóvel, o seguro florestal não é obrigatório e como tal nem todos os agricultores o querem fazer. Para melhor compreender as implicações desta situação, admitamos que em determinada área há, digamos 100 propriedades florestais e que só uma delas está segurada. No caso de ocorrer um incêndio na propriedade segurada a companhia tem de pagar a indemnização mas este custo não é compensado pelos prémios de seguro das propriedades que não arderam (por não estarem seguradas). No caso do ramo automóvel, a companhia recebe prémios de milhares de automobilistas, mesmo dos que pagam há muitos anos e nunca tiveram acidentes. Neste caso podemos dizer que a companhia “dilui” as despesas que teve com o carro acidentado, por todos os outros segurados.

Segundo, para que as companhias possam estimar o prémio de seguro “justo” necessitam de ter informação fidedigna e modelos adequados que lhes permita estimar a probabilidade de ocorrência do sinistro e, em caso de ocorrência, qual o montante dos encargo que isso acarreta para a empresa. Ora, no caso das florestas as companhias não têm informação suficientemente desagregada que lhes permita calcular a probabilidade de ocorrência de incêndio ao nível da empresa florestal e, no caso de ocorrência, não podem estimar a probabilidade de arderem árias de várias dimensões, por exemplo, 5, 10, 50 ou 100 hectares.

Por fim, para as companhias de seguros é muito difícil estimar o valor de uma floresta, não só porque o seu valor varia de espécie para espécie, mas também porque dentro da mesma espécie varia com a idade e com os preços de mercado dos bens e serviços que a floresta produz em cada ano.

Em conclusão, para que a situação actual se modifique é necessário que a legislação relativa aos seguros das propriedades florestais se altere e que se faça investigação no sentido de desenvolver modelos que permitam a avaliar, tão correctamente quanto possível, a probabilidade de incêndio e do valor dos danos causados.

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António Cipriano A. Pinheiro (apinheiro@uevora.pt) - 17.12.2009
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Évora